Blog sobre o Palmeiras, feito por um militante socialista

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Identidade, violência e poder: a questão das torcidas organizadas*

Relutei muito em  postar algo sobre o assunto, afinal como resumir algo tão complexo em poucas linhas para um blog? Os acontecimentos que se sucederam ao clássico contra o São Paulo fizeram eu mudar de idéia.
Infelizmente terei que ser algo esquemático para poder condensar o texto, com isso o conteúdo será certamente prejudicado,mas vamos lá.
A ideologia dominante, colaboradora para a manutenção do capitalismo, prega, em linhas gerais, a igualdade, a liberdade, a oportunidade, a lógica de que você pode "subir na vida" trabalhando, etc. Desde crianças somos acostumados a ouvir isso, coisas do tipo, "se você estudar pode ser alguém na vida", "Deus ajuda a quem cedo madruga" e outras coisas do tipo. Outra coisa que ouvimos é que "todos são iguais" (mesmo que seja perante a lei), que vivemos em um país tropical, abençoado por Deus..., no qual o brasileiro típico representa a mistura de raças, portanto, onde o preconceito não existe, ou, se existe, é um fenômeno pontual, que não chega aos pés do que acontece em outros países. Tudo isso é dito e reforçado, pela escola, meios de comunicação, ambiente de trabalho (afinal, não é verdade que basta o nosso esforço para fazermos carreira em algum lugar, rsrsrsr).
Normalmente é na fase da adolescência que há a percepção que alguma coisa não está encaixando nesta  história toda. Tá certo, o progresso depende do esforço, do trabalho, não é o que dizem ? Mas não há empregos. Todos são iguais? Mas uns são discriminados por serem negros, outros por serem amarelos, outros por serem gordos, outros brancos demais, outros, altos, outros baixos, etc., etc. Note-se que na adolescência essas características são lembradas a cada momento pelo grupo de "amigos" com uma certa dose de sadismo.
É neste ponto que o bicho começa a pegar de forma mais contundente, um cara sem emprego, que não consegue namorada, pois além do amor um pouco de dinheiro ajuda também (e que não me venham com hipocrisias), muitos fora dos padrões físicos made in malhação, que são duramente cobrados na escola, quando arrumam emprego, são humilhados no trabalho, se não diretamente, indiretamente, devido a um esforço desproporcional ao salário recebido, começa a ver que as coisas não se encaixam com o discurso oficial da ideologia dominante.
E se, na realidade, todas as portas estão fechadas para a pessoa ser tratada com dignidade e ter o seu esforço pessoal reconhecido, é necessário que este reconhecimento venha de outra forma. E é aqui que a violência desempenha um grande papel.
O papel central da violência não é a de prover, com bens necessários, a subsistência das pessoas com ela envolvidas, mas sim o reconhecimento através do medo. Uma pessoa passa a ser "importante", a ser notado, pelas outras pessoas, mesmo que este reconhecimento não seja para exaltar as suas qualidades tidas como "positivas". Além disso, quem está envolvido com a criminalidade, pode ter acesso a vida sexual, que se inicia na adolescência de forma mais fácil. Um jovem, desempregado, que não tem o padrão físico de beleza da Malhação e que não participa de nenhum grupo especial (crentes, roqueiros, "bandidos", etc.), provavelmente vai amargar um tempinho sem namorar e ter uma vida sexual ativa.
E onde entra a torcida organizada nesta história? Simples, na questão da dupla identidade de um grupo. Primeiro, os membros de uma torcida são identificados pelo clube que torcem, mas como a torcida de um clube é muito heterogênea, tendo desde os mais ferrados, até os menininhos leite A, filhos de executivo, a identidade entre todos seria algo muito difícil, daí entra o papel da torcida, que são aqueles que buscam serem reconhecidos através da violência, uma vez que não podem fazer isso através do dinheiro, da profissão, etc., não porque não queiram, mas pelo motivo de que a realidade não permite isso. Mas é claro que vai vir alguém dar o exemplo de um montão de pessoas que tem certo dinheiro e padrão de beleza da Globo, por exemplo, e participam de torcidas organizadas. É óbvio que a realidade é mais complexa do que esta explicação esquemática, mas o movimento geral das torcidas pode ser apreendido por esta explicação. Há um certo padrão nisso tudo e ele tem relação com a questão da violência e do poder, a identidade se dá em relação a estes fatores, a camisa da Mancha, Independente, Gaviões, é só a cereja do bolo, o complemento final.
As brigas de torcidas, assim como as de Punks e Skinheads, do lado A e lado B, da facção Y contra a Z, vão no sentido de buscar demonstrar, entre aqueles que buscam o reconhecimento mediante o uso da violência, qual tem, de fato, mais poder. Este que é um poder meramente aparente, pois quem tem o poder de verdade, mediante o controle do Estado, são justamente aqueles que gritam contra a violência, ou seja, a burguesia, os meios de comunicação, alguns governantes, etc. Digo alguns governantes, pois boa parte deles, além de controlar o Estado, possuem verdadeiras milícias particulares e estão envolvidos até o pescoço com a "bandidagem".
Portanto, a questão da violência entre as torcidas é um fenômeno social muito mais amplo e com uma solução muito mais distante que a de ter uma legislação mais dura, pois quando falam em legislação mais dura, o objetivo é apenas limpar a mercadoria futebol das coisas que possam prejudicar a sua comercialização. Sabem que a mesma violência vai continuar, mas, para eles, desde que não seja algo que prejudique a venda do futebol, não há problemas.

* Os textos não passam por revisão, logo depois que são escritos são publicados.

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